sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Poema do Zé Nascimento que abriu o nosso jantar

No dia 25 de janeiro último fizemos 50 anos, comemoramos essa efeméride num jantar com todos os músicos e suas famílias, que ao longo dos anos fizeram parte dos DIAMANTES NEGROS , juntámos alguns amigos de sempre.
Impunha-se que o local fosse a Sociedade União Sintrense, a nossa maternidade à cinquenta anos, para conforto dos presentes e devido à exiguidade do espaço para mesas, ficou a lotação reduzida a 120 pessoas, muita gente infelizmente ficou de fora, devido a esta limitação.
Foi uma noite inesquecível, que começou bem, com este poema delicioso que retrata em verso todas as nossas origens, o nosso escritor e poeta José do Nascimento, também ele parte integrante da organização, retratou em verso com muito apropósito e graça, as nossas aventuras e desventuras.


A malta quer é rock

Houve muito estremecer de pélvis
Com o aparecimento de Elvis
Nos idos anos cinquenta!
Shadows e Cliff surgiram

E muitos corações afligiram…
Estávamos nos anos sessenta!

Em Sintra, nada se passava
Vinha tudo da estranja.
Havia sim, umas corriditas na Granja
E o que na rádio se escutava.

Muitas noites de Verão
no fundo do Paço
Há muito eleito o espaço
De reuniões de malta amiga
E um ou outro alívio de bexiga.
O Álvaro Zé e o Cainhas
Que eram bons de gaita… de boca
Animavam com umas musiquinhas
Uma plateia que nada tinha de oca
E que um dia gritou: “A malta quer é rock
Que haja quem o toque!”

Cainhas assumiu-se como o homem do tambor.
A primeira tarola foi um fervedor,
Para timbalão, nada como uma panela…
Grita-lhe a mãe da janela:
“Carlitos, toca mais baixo
Que estás a dar cabo do tacho!”
A verdade é que aquele trem de cozinha
Serviu para adestrar a mãozinha
Do baterista do beco do Briamante,
Um dos primeiros a lapidar o “diamante”.


Entre ânsias e algumas correrias
Apanágio de Álvaro da rua das Padarias,
Com a gaita definitivamente arrumada
Ensaiou a primeira guitarrada
Minimamente ritmada.
Apareceram alguns medos
Com os primeiros calos nos dedos,
Mas não existe incapacidade
Onde impera a tenacidade.

Mas era preciso mais, muito mais
Que acabou por vir do largo do Morais.
Foi o Cainhas a tirar da sacola
Um velho companheiro de escola,
Carlos… O Xixó da viola
Que tocava piano e falava francês.
Este novo freguês
De ar bem Beetlado,
E Shadows no coração
Cedo se assumiu como líder incontestado.

Para dar um ar culto, quase sinfónico
Foi-se procurar um filarmónico
Que não pusesse a boca no trombone
Mas que tocasse saxofone.
E o Carlinhos da Penalva não saiu treta
O rapaz era mesmo bom de palheta.


Na altura, a coisa pouco andava
Não atava, nem desatava,
Até que o senhor presidente
Se reuniu com toda a gente
E anunciou: “Vocês são gente amiga,
Mas chega de coçar a barriga,
Está na hora de começar a tocar
Para a malta bailar…
Ou então, podem pôr-se a andar!”
E foi por isso que o 25 de Janeiro se animou
E o povo gritou:
“Este é o rock que fazia falta
Os Diamantes Negros são cá da malta!”

Sintra já tinha o seu próprio rock,
Mas faltava um pequeno retoque
Que veio da rua da Biquinha
Oriundo da terra da sardinha.
Nunca o alto, bem alto Luís
Se sentiu tão alto e tão feliz
Quando o Cainhas lhe anunciou:
“Sabes o que eu acho,
Tu que és alto, vais tocar baixo!”

O baile já está armado
Por isso, chega de tanto passado.
Pode haver quem goste deste cavaqueio
Mas julgo que já chega de paleio,
Porque a malta quer é rock,
Que haja quem o toque!
 

 
José do Nascimento

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